Henrique saiu do consultório, deixando o médico num dilema. Haveria ou não de telefonar ao inspector que tinha vindo da capital para descobrir o assassinato de Julieta? A sua mãe dizia-lhe para não o fazer, para não quebrar o juramento que fizera ao grego. Mas lá no fundo ele estava-se a marinbar. Já estava pelos cabelos. Pegou no telefone, era a sua liberdade que estava em causa também. Um negócio de golfe em vez de aturar malucos. Nisto toca o móvel. Era a sua progenitora. Em meia dúzia de frases a sua decisão tinha sido invertida pelo supremo poder maternal. Choramingava e tantava balbuciar argumentos quando a sua mãe desligou. Foi demais. Pegou numa pistola. Matou todos os doentes que se encontravam na sala de espera, a recepcionista e a seguir matou-se a ele.
Nas nuvens, literalmente, Julieta, Matisse e Eduardo nada viram. Estavam entretidos a fazer o template do blog que iria relatar o crime de Vila do Amor. Discutiam as fontes e as cores.
Isto enquanto no hospital acabavam de coser a cabeça a Carolina. Faltava também uma mão que se tinha extraviado pelo caminho, pelo que foi necessário colocar uma ordem de compra. Dai que ela ainda não se tivesse junto aos amigos...
Simão fechou mais cedo a livraria e foi a casa buscar a sua AK-47. Dirigiu-se para o talho do pai onde este o cumprimentou como habitualmente: "Diz fedelho". Ao que ele respondeu: "De joelhos, monte de merda. JÁ!". E sacou dum argumento á prova de refutações. O outro fez o que lhe mandavam, parvo de surpresa. "Agora vais-me pedir desculpa por estes anos todos de más criações, ao mesmo tempo que mandas com a cabeça na parede, até sangrares". Um pontapé certeiro e um tiro numa canela convenceram o Palhinhas a tão estranho ritual. Quando estava satisfeito com a coloração da face paterna, Simão descarregou a arma nela.
Depois dirigiu-se para o Café Central, matando indiscriminadamente quem se atravessava no seu caminho...
Quando ele entrou, AK-47 em punho, ninguém lhe ligou, absorvidos que estavam pela notícia que dava na BlogTV. Nelita Boca de Charroco apresentava ao minuto 112 do telejornal um acidente com dois conhecidos da terra: Dr. Boa Morte e Nuno Gosma. Ambos seguiam a alta velocidade numa carrinha que se tinha despistado e caído por uma ribanceira a baixo. Os dois passageiros tiveram morte imediata, tendo apenas parado numa criação de porcos. Suspeita-se que os dois indíviduos estavam envolvidos no tráfico de orgãos humanos, nomeadamente para Inglaterra.
Nelita atira a cara para trás, contorce a boca e areja o cabelo. Nelita leva um balázio no meio das trombas. Transmissão interrompida, retomaremos dentro de momentos!
Em directo de Bagdad, perdão, Vila do Amor: Simão ordena que todos se encostem a uma parede. Depois começa a fazer perguntas:
- Tu. Quem criou o Cavaquismo?
- Cavaco.
- Certo - E matou-o
- Tu. 5 vezes 7
- ehhh.....bem......
- Está certo - (rajada de metrelhadora)
E assim continuou alegremente ao som do rádio, que ele pediu para sintonizar numa estação que só dava música clássica....
Do outro lado da cidade, Henrique caminhava a passos largos para o farol. No forro algibeira das calças sentia o frio duma 35mm. Entrou pela porta das traseiras e dirigiu-se ao primeiro andar onde apanhou Jack e Rebecca em cima do piano. Ao princípio ficou muito espantado com tanto equilibrismo, mas depois lembrou-se do propósito da visita e disse:
- Não temos orçamento para esta produção, por isso vim matar-vos
- O quê? - Rebecca olhava-o incrédula enquanto procurava as suas roupas
- Rapaz, tem calma - aconselhava Jack
- Por isso, rezem o que têm a rezar e quando estiverem prontos, "good bye"
- Não me podes fazer isso - Rebecca estava descontrolada - a minha personagem ainda não foi suficientemente desenvolvida. Não podes....
Calou-se porque com uma bala no meio dos olhos há poucas pessoas que consigam falar! Jack só lhe conseguiu dizer que não era crente. Pelo que o outro assumiu que não eram precisas rezas...
Ao chegar ao Sushi Bar, Henrique deparou com o degradante espectáculo de ver o Yoko e Farinha completamente bêbados. Estavam os dois no chão. Tinham desenhado uma pista de carros no chão, com giz. E estavam a fazer uma corrida de placas. Um gago e estrábico. Dois bêbados e sem dentes. Vamos ao diálogo:
- Mãos ao ao ao ao ar!
- Olha o ECO - disse Yoko, e riu desalmadamente, mas sem brancura entre os lábios.
Estrábico mas com boa pontaria, Henrique deixou-a ali logo cega, surda e muda para todo o sempre. Aterrou em cima da placa, ironia do destino, que com o peso do seu crânio se partiu em dois.
Apesar de poder rebentar balões, á custa de muitos whiskys, Farinha ficou alerta. Procurou a placa, que colocou, não ligando ao pó nem á côr que tinha.
- Então foste tu que mataste a Julieta?
- Eu? Essas coisas não se sabem na primeira série. Ficam no ar. Há que fazer render o peixe. Faz-se a segunda série. O filme. Nasce o mito. O culto. Pais colocam o nome Julieta ás filhas. Essas merdas. Que interessa se fui eu?
- Mas e então a lógica. Tem de have um fio condutor...
- Pois. E tu podias usar Corega Tabs para segurar essa placa em vez de clips.
Não é preciso dizer que o Farina também está a dormir com os peixes, pois não? ("sleeping with the fish", na versão original)
(pausa para café, cigarro, pipocas, whatever)
Henrique, o gago dirige-se para o Café Central.
Lá encontra o seu parner-in-crime, Simão.
- Então? Correu bem? - pergunta Henrique?
- Ya. Limpeza geral
- Eu não te disse? Aquele diagnóstico de psicopata estava ERRADO, pá.
- Pois, eles é que nos queriam matar a nós.
- Ainda bem que seguimos o conselho daquelas vozes.
- Vai uma bejeca?
- Buga
- Saúde!
- Saúde!

Original Sound Track: Black Cat, White Cat
THE END
Enquanto batia as suas asas Julieta perguntou aos amigos (?), Matisse e Eduardo:
- Vocês estão a perceber alguma coisa deste Casino? Ainda não "saquei" quem me apertou o gasganete, porra!
Eduardo coçou a aurélula, Matisse sacudiu um pouco de fuligem da sua túnica branca. Responderam quase ao mesmo tempo:
- E tu julgas que eu sei quem achou que eu tinha problemas respiratórios? - disse Matisse, acendendo um cigarro (no céu fumar não mata).
- Mas foi o mesmo cabrão, ou cabra, que não foi com com a minha cara! - rosnou Eduardo, enquanto a sua mão percorria as cicatrizes nas faces, mal disfarçadas por um corte e costura numa urgência divina.
- Dá aí uma passa, Matisse - pediu Julieta.
- Eh, pá... nem aqui tens cheta para os comprares?
- Dasssss, és mesmo sumítica. Fica lá com os cigarros.
- Bem, vocês não se vão zangar por causa dessa merda, vão? Temos um crime para resolver! - Eduardo aumentou ligeiramente o tom de voz.
- Naaaa. Temos três. E se não nos zangamos por causa ti, não há-de ser por causa dum cigarro.... - argumentou Julieta.
- Isso são águas passadas.... - Eduardo voltou a ajustar o volume.
- Oh kida, era a este que tu vinhas contar os teus desamores? - atirou Julieta a Matisse. Um olhar, que não facas ou canivetes. E apontou para o homem que falava com Henrique...
- Como é que tu sabes disso? - Matisse ficou como se lhe faltasse o chão debaixo de si. Não só a tinham morto como agora alguém se preparava para lhe violar a alma. A beata, incrédula, caiu-lhe das mãos.
- Nós os imortais sabemos trinta por uma linha, lemos pensamentos e vemos muita coisa - disse num riso trocista Julieta.
- Então porque é que ainda não resolveste o Crime, oh iluminada - perguntou-lhe Eduardo - levemente alterado com aquela situação toda.
- Pá....isto não pode ser assim! - Julieta aproveitou a desorientação de Matisse para lhe roubar o maço de tabaco. Acendeu um, como só ela sabia, e respondeu: Se eu desse todas as respostas isto seria uma treta, uma bolacha de água e sal, tal como esta gaja. Fora de brincadeiras, nem Deus sabe. Também já falei com uma cigana que foi violada e assassinada a semana passada. Esteve aqui por engano antes de ir para o Inferno, traficava menores para Espanha. A bola de Cristal e as Cartas nada disseram.
- Nunca acreditei nessas merdas. Parecem aqueles testes nos blogs. É para defs... - E Eduardo também sacou um cigarro.
- Pois eu vou confessar uma coisa - Julieta ohou para Matisse, encostada a um canto. - Pensava que tinha sido ela. Com todos os seus problemas freudianos, as constantes guerras com o pai, as milhentas tentativas de suícido, o seu amor doentio por ti. E claro, sabendo das "tropelias" que aqui e ali fazemos (Julieta piscou o olho a Eduardo) julguei que tinha sido a nossa princesa - e dito isto deu-lhe uma palmada no ombro, daquelas de sacudir o pó a tapetes.
- E eu? Porquê eu? Porque me mataram? - disse Eduardo olhando para cima, e depois lembrou-se que já estava no céu.
Matisse de repente acordou.
- Mas tu julgas que eu não sei nada do que se passa entre vocês? Tu é que és uma ingénua, ainda não percebeste com quem lidas, ou já te esqueceste do Nunito? Não fosse o tal do pescador ainda te tinhas metido dentro de água com uma valente cadela - e arrancou-lhe o maço de tabaco das mãos.
- Bem...zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades - disse Eduardo voltando a olhar para o consultório.
- Eu ainda não descobri nada, com este diálogo de merda - disse Julieta
- Afasta-te, deixa ver - e Matisse empurrou a primeira defunta deste novelo sem fim. - Será um assassino ou uma assanina? Serão vários?
- Haverá vida em Marte? - e Julieta mandou um "caldo" na cabeça de Matisse - Fecha a loja por uns cinco minutos. Eu sei que é difícil no teu caso, mas pode ser o teu contributo para a resolução desta intriga policial. Deixa ouvi-los.
Deitado no divã, um homem estrábico e despenteado chorava como uma Madalena arrependida e dava murros na parade.
- Olha, olha. Este até pode ter sido -disse Julieta - Nunca lhe dei bola. E uma vez apanhou-me na cama com a Carolina. Ficou piurso. Não sabia que eu dava para os dois lados. Não sei como não morreu ali.
- Ah...tu....????? - Matisse ficou com as faces rosadas
- É a pior coisa para um homem. Ser preterido em favor de uma mulher. Uma vez tive um professor na faculdade cuja mulher se quis divorciar. Quando o gajo descobriu que tipo de "corno" era, e como na certidão de casamento dizia "comunhão de bens", pegou numa moto-serra, e cortou a mobília de toda a casa ao meio. Acho que ela é feliz agora...
- Como é que tu sabes essas histórias todas? - Matisse fez a pergunta com um ar verdadeiramente ingénuo
- Perguntei-lhe, no dia em que tivemos de foder no chão, em casa dele. - Maço de cigarro outra vez nas mão da primeira defunta.
- Oh Julieta, agora que falas nisso, diz-me lá: em Vila do Amor ainda não deste uma queca com quem? - Matisse parecia querer recuperar o fio á meada.
- Bem, minha querida, contigo acho que não. Pelo menos que me lembre. O Henrique e o Simão idem. O Padre "is out". Este. O outro, o que foi para a Aldeia de Baixo, o novo, esse marchou. O Jack e a Rebecca são, eram, uns queridos. A Carolina....ai a Carolina. Noites malukas que eu passei com aquela gaja. A Yoko ia lá meter o bedelho de vez em quando, mas eu nunca lhe dei bola, acho que ela gosta mesmo é de mortos. É necrófila.
- Necrófila? Mas então ela anda sempre nas bocas do mundo. - Eduardo estava boquiaberto.
- Não percebes nada, pá. - Julieta acertou-lhe com o fumo no meio dos olhos - Ela gosta daquilo. O resto pode ser um disfarce, sei lá. Olha, pergunta ao gajo que está a falar com o Henrique. Eu já a topei a abrir campas, isso é certinho!!!
- E o detective Farinhas? Achas que vai dar conta do caso? - Matisse tirou um cigarro mas deixou o maço na mão de Julieta.
- Aquela amiba? - Julieta riu a bandeiras despregadas - Bem, ele não pode demorar muito, senão o fígado desfaz-se. Mas mesmo que o factor integridade física jogue a favor dele existe o problema neuronal. O gajo vê muitos filmes, não tem uma linha de raciocínio. Não sabe focalizar.
- Eh...calem-se lá. O estrábico está a dizer que matou a Carolina antes de vir para a consulta. - Eduardo jogou as mãos á aurélula
Julieta por um lado estava desolada com o triste fim da amante ocasional, companheira nuns chutos e confidente. Mas por outro lado a recordação dos prazeres terrenos e a sua mais que provável repetição angelical fizeram-na arrebitar.
No consultório, Henrique explicava as razões e a forma. Que pensava que tinha sido ela a autora do assassinato de Julieta e do outro casal, motivo que ele presumia estar relacionado com uma página dum diário que tinha achado no forro da carteira da defunta. Depois não pensou duas vezes: raptou-a. levou-a para casa dele, deu-lhe com uma jarra séc. XIX pelo pensadura abaixo e cortou-a aos bocados, por forma a caber no frigorífico.
- Mas você assassinou para se vingar? - perguntou do alto dos seus óculos o médico
- Eu era o marido da Julieta. Isto é. Iria ser. Assim visse ela a razão. Tudo tem uma lógica neste mundo percebe? Ela é que não queria ver. Percebe? Era uma abelha, sempre a polenizar....Percebe?...
O médico ora ouvia, ora pensava no jogo de golfe que tinha marcado, no conselho da mãe no leito de morte, aconselhando outra especialidade médica, nos olhos que lhe provocavam tonturas (os daquele lunático que deu em matar "abelhas"), no delegado de propaganda médica e na próxima viagem ás Maldivas. Até que adormeceu e Henrique saiu...
Julieta passou-se. Tratou de telefonar a um jeitoso que conhecera nas urgências divinas, um Pitangui do céu, para tratarem a sua amiga "comme il faut".
E estavam assim, todos meio abalados, quando Julieta exclamou: "Vocês não querem fazer um blog para irmos relatando este crime, as nossas vivências terrenas e a sensação de ter duas asas?".
Eduardo olhou para Matisse. Matisse para Eduardo. Ao que depois atiraram-se para cima de Julieta, gritando e batendo-lhe: "Se calhar estamos aqui por tua causa, ainda queres gozar com isto tudo?"
O que a seguir se passou fica na imaginação do leitor. Como é que se diz três em francês? ....
Julieta esfregava as órbitas holográficas com um certo descrédito, não podia acreditar no que lhe parecia a irrealidade, os esboços dos amigos estavam a tomar a forma no mundo dos poetas mortos. Afinal a vida tinha sido para ela um poema ao sabor dos desejos.
Seriam Eduardo e Matisse esquissos de uma outra realidade ou estariam todos no mesmo bardo?
Julieta usa a sua ubiquidade e começa a observar as poças de hemoglobina em redor dos corpos acontecidos dos seus amigos, os policiais atravessam a sua indignação com indiferença e a mensagem que estava no voice mail era um prenúncio de morte; a voz melódica, encantatória do psicoterapeuta de Matisse avisava de um encontro irrevogável com o passado. Julieta resolve deixar o local de mais uma história para esquecer e vai libertar os seus amigos de um sonho vivido em terra de ninguém.
Matisse e Eduardo tropeçam no entediado médico legista que fica no desemprego, porque a anatomia dos corpos faz parte do passado e correm desenfreadamente para junto da Julieta que lhes sorri com gestos de gaivota, é que a liberdade tem um preço. Todos eles tinham pago com a vida não vivida a ousadia de amarem até ao limite do prazer.
Subitamente os três amigos de outros tempos fazem um pacto de vingança, já que os mortais navegavam em águas de obscuras realidades, eles iriam romper as fronteiras do além e fariam justiça com as próprias mãos. Dirigiram-se num só pensamento para o divã do terapeuta de Matisse e ficaram incomodados com o cheiro a suor de Henrique que estendido continuava a chorar numa espécie de hipnose catártica e em uníssono fizeram um gesto obsceno para a objectiva da vídeo câmara do psiquiatra, o tempo da sessão estava quase a terminar, no entanto eles tinham todo o tempo do mundo!
Não era a primeira vez que Farina via a morte. Já a tinha visto em dezenas de rostos, cadáveres anónimos ou até colegas de profissão. Ex-colegas seria mais correcto.
A morte desta vez apareceu-lhe, mal abriu a porta, sob a forma de umas pernas compridas e bem torneadas por onde escorria um fio de sangue. As pernas para mais estavam nuas e apenas uma ligeira blusa de algodão branco, ensopada de sangue, vestia a criatura. Matisse era o nome dela. Matisse era também o nome de um pintor que adorava o vermelho, mas Farina achou aquela obra mais própria de um sádico ou de um cirugião louco que de outro tipo de artista. Um longo golpe rasgara a jovem desde a zona púbica até ao pescoço, dois outros cortes nas coxas e uma orelha cortada.
Farina acendeu um cigarro, tossiu levemente e entrou. Do outro lado da sala jazia um novo cadáver - Eduardo. Também seminú e postado frente a uma webcam. Seria possivel que...
Farina interrogou-se, ele não era perito em internet. Ele, aliás, não era perito em nada. A própria Yoko tinha-lho dito entre dois arrufos. Eduardo jazia com dois cortes triangulares, um em cada face e uma perfuração na zona abdonimal.
Sangue. Havia sangue por todo o lado, o cheiro tornava-se enjoativo e Farina veio cá fora respirar um pouco de ar puro enquanto hesitava entre dar uma inspecção à casa ou telefonar já para a policía. Cá fora, deparou-se com o Dr. Boa Morte. Morto. Farina coçou a cabeça, eram mortes a mais para o seu gosto e não percebia a razão da presença do sinistro médico-legista naquele quintal.
Foi nessa altura que tocou um telemóvel dentro de casa...
A noite tinha já caído na Aldeia de Amor. Matisse recostou-se lânguida no sofá, para assistir ao filme que o Eduardo tinha trazido. Tinha parado de chover. O luar inundava o jardim, projectando sombras que dançavam com o vento nos cortinados e no tecto da sala. Matisse ouviu o Eduardo perguntar da cozinha:
- Queres gelo ?
- Sim, uma pedra.
Eduardo chegou com os dois copos de whisky, entregou um a Matisse, que bebericou um gole de satisfação.
- Que filme é este Eduardo ?
- É o «Shadow of a Doubt» de Alfred Hitchcock.
- É bom ?
- Acho que vais gostar.
- É sobre quê ?
- É sobre mentiras, dúvidas, enganos, pessoas que não são aquilo que aparentam ser...
Matisse não respondeu, levou o copo à boca, enquanto fitava os olhos de Eduardo à procura de algo mais do que uma simples coincidência. Parecia ter havido na voz dele uma nuance de acusação. Será que ele desconfiava ? Eduardo introduziu o DVD no leitor, sentou-se no sofá e passou o braço à volta dela.
- Matisse, antes de vermos o filme, queria fazer-te uma pergunta.
- Diz.
- Aquele último jantar em casa da Julieta...
- Sim...
- Tive a estranha sensação de que ela te olhava como se estivesse furiosa contigo.
- E porque é, que ela haveria de estar furiosa comigo ?
- Pois, não sei, por isso é que estou a perguntar.
- Estás enganado. Foi apenas impressão tua...
- Acho que não, e acho que reparaste, porque estavas sempre a desviar o olhar dela.
- Oh, que parvoíce... Matisse endireitou-se, fitava o copo. Eduardo continuou.
- E depois há mais uma coisa... A seguir ao jantar, estávamos todos na varanda a conversar, eu resolvi ir ao wc. Quando passei pela cozinha vi a Julieta a discutir de forma muito acesa com o Nuno. Pareceu-me, e digo apenas, pareceu-me, que ela se estava a referir a ti.
- Oh ! Mas estás parvo ou quê ? - Matisse levantou-se do sofá com um ar furioso. Virou-se para Eduardo e disse.
- A Julieta morreu Eduardo. Morreu ! E tu estás para aqui a perguntar se eu fiz alguma coisa que a pôs furiosa antes dela morrer. O que é que tu estás a querer insinuar ? Só falta dizer que fui eu que a matei não ?
Matisse mostrava um olhar muito indignado. Eduardo olhou para ela em silêncio durante uns segundos. Matisse explodiu de raiva.
- Eu não acredito ! Tu estás mesmo a insinuar isso !!! Chega. Não quero ouvir mais nada. Rua, quero-te fora daqui... Já ! Rua !!!
Eduardo sorriu abertamente e puxou Matisse para os seus braços, e para o seu colo.
- Desculpa amor. Sabes que eu nunca pensaria isso de ti. Desculpa.
E começou a beijá-la no cabelo, no pescoço, na cara. Matisse resistiu, mas pouco a pouco começou a perder a rigidez e deixou-se abandonar aos beijos de Eduardo. Virou-se para ele e abraçou-o enquanto começava lentamente a retribuir os seus beijos.
- És um palerma.
- Pois Sou - Disse ele sorrindo enquanto a apertava nos seus braços e a cobria de beijos.
- Tens a certeza que queres ver o filme Eduardo ?
- Se tu não quiseres eu tambem não quero...
Eduardo passava as suas mãos pelo corpo esbelto de Matisse. Ela era realmente muito bonita. Não admirava que ela tivesse tanto sucesso como modelo. Sentiu-se de repente com muito calor. Matisse empurrou-o de encontro o sofá. Estava sentada em cima dele e mexia-se como uma gata... Ronronava mesmo. Começou lentamente a tirar a blusa. Eduardo assistia hipnotizado com um sorriso de malandro. Matisse atirou a blusa para cima da cara de Eduardo, que ficou enebriado com o seu perfume, quando ele tirou a blusa para o chão, já Matisse estava lentamente a tirar o soutien com as mãos nos seus maravilhosos seios. Matisse emitiu uma risadinha quando sentiu que Eduardo já estava a ter uma erecção. Eduardo levantou as mãos à procura daqueles seios incríveis quando subitamente, Matisse perdeu o sorriso, gritou em pânico, e saltou do sofá à procura da blusa. Eduardo olhava para ela atónito.
- Matisse, mas... o que... o que foi que eu fiz ?
Matisse tinha os olhos muito abertos, cobria os seios com a blusa mas não parecia olhá-lo a ele, mas sim para a janela. Eduardo virou-se e viu de forma distinta uma sombra, um vulto iluminado pela luz do luar a olhar para eles os dois através da janela.
- Hei, quem está aí ? - Gritou Eduardo.
O vulto começou a fugir. Eduardo foi a correr até à porta da casa, ainda viu a sombra a saltar o muro do jardim, mas quando chegou à rua, já ela estava vazia... Aproximou-se do sitio onde tinha visto a sombra saltar o muro e reparou que estavam uns óculos no chão. Eram quadrados, cinzentos, pesados, não eram uns óculos comuns. Pareciam estranhamente familiares ao Eduardo. A última pessoa que ele tinha visto com uns óculos parecidos tinha sido aquele médico legista que tinha passado a certidão de óbito à Julieta. Como é que ele se chamava... Sorte ? Norte ? Corte ? Lembrou-se com um calafrio... Morte.
Farina e a sua gabardine entraram no Café Gaivota em Vila do Amor. Cigarro e fino (Super Blog), o nosso herói meditava sentado numa mesa com vista panorâmica para o largo central. Mentalmente tentava fazer o filme da cena do crime e listava os suspeitos, num casting com direito a cama, comida, roupa lavada e sol aos quadradinhos. Para Farina o raciocínio partia sempre do móbil. E o móbil só podia ser um de três. Genericamente falando, claro está. Sexo, dinheiro ou poder. Ou um cocktail destes ingredientes, sendo que invariavelmente eles andam de mãos dadas. Neste caso particular ele excluia o poder. Uma rapariga de vinte e oito anos, sem cheta para mandar cantar um cego, estudante de línguas, a preparar um mestrado sobre literatura erótica, professora primária neste vilarejo materno, escritora em part-time (sem sucesso, diga-se), tinha tanto poder como ele tinha cabelo. Farina exclui logo o móbil dinheiro, também por razões do foro capilar. Ficavam as razões passionais. O crime era passional, disse Farina para consigo. E bebeu o fino duma assentada, satisfeito consigo próprio por ter chegado a tão brilhante conclusão, rejubilante pela fineza dum raciocínio tão cristalino, seguro de haver algo naquele dia construído por si.
Disto isto começou a pensar em quem poderiam ser os eventuais assassinos passionais da professora Julieta. Pensou no estranho sonho que tivera depois da bebedeira que apanhara com whisky martelado, em que a defunta lhe aparecera, qual Nossa Senhora de Fátima aos Pastorinhos, a compôr uma lista de nomes de quem lhe tinha encomendado a "missa". Isto para, sem deixar cair a bola na relva, dar uma de Teresa Guilherme, (o Farina adora a Teresa, é um fetiche, não sei, é o que eu vos digo, o gajo é anormal, porra) e a seguir começar a riscar os nomes como uma louca. "Foda-se Farina, tás cada vez a bater pior da mona, pá. Qualquer dia também falas com o espírito da tua sogra. Isto é o que dá abusar da merda da bebida!". E lembrou-se que ainda não tinha falado pessoalmente com os amigos de Julieta que viviam em Vila do Amor, Matisse e Eduardo. Também devia ir á capital do Império falar com o ex-marido, um tal de Nuno. Tivesse aguentado seis meses e agora o estado civil seria viúvo. Estavam todos num congresso sobre Blogs, em Braga, falara com eles por telefone.
Lábios na segunda cerveja, mente no corpo de Yoko, uma "to-do list" manhosa rabiscada num guadanapo, eis que entra café dentro o atípico homem que lhe dera a dica do SUSHI BAR. Farina até pensou dar-lhe um beijo, mas depois olhou para a cara de poucos amigos dele e pôs a ideia de lado.
- Boa tarde - disse Farina.
- Boa tarde - disse o outro, com um olhar meio desconfiado, meio "que tanso que me saíste".
- Não se quer sentar? Tomar um fino? - convidou Farina.
- Cinco minutos - aceitou o homem, depois duma breve hesitação.
- Como é mesmo o seu nome?
- José Palma. Mas pode chamar-me Palhinhas - e pediu um fino.
- OK. E o que é que faz?
- Tenho um talho aqui na vila. Vai para trinta anos.
- E é detective nas horas vagas também?
- Essa agora - o Palhinhas quase que se engasgava e cuspia a Super Blog por cima da gabardine do detective.
- Qual é o seu interesse neste caso, sr...Palhinhas?
- O meu interesse...sr....Farinha...é que perdi uma filha! - e posou bruscamente o copo sobre a mesa.
- Farina. O meu nome é Farina.
- E tanto quanto me foi dado observar você anda ás aranhas - continuou o Palhinhas, sem prestar atenção a nomenclaturas - Você não vai lá a pinocar bêbadas.
- Como é que você....- Farina corou dos pés á cabeça.
- O gato delas contou-me. - e piscou o olho ao agente vermelho que tinha á frente - E já agora, não desmoralize com isto, mas ela quando deixa de poder conduzir passa a poder fazer outras coisas, assim oh, tão certo como dois mais dois serem quatro. Não acredita em mim escolha qulquer um desses que estão aí sentados nos bancos do largo e pergunte. Aquilo é como o brandy-não-sei-quantos: a fama que vem de longe. E olhe que não são poucos a atestar.
Farinha ficou meio desmoralizado com aquele upper cut de esquerda. Nisto toca o telemóvel, qual árbitro a afastar os adversários. Era do Instituto de Medicina Legal. Já tinham mais informações, teria que passar por lá. Água, gelo. Toca para o segundo round.
- Mas então o senhor é o pai....a informação que eu tinha é que ela era orfã, os pais tinham morrido estava ela na Europa a fazer o Erasmus.
- Eu sou o pai não oficial. Percebe? Ou quer um desenho?
- Pois, agora percebo o seu interesse. Era filha única?
- Não, infelizmente tenho aquele mentecapto que ali vê a passar no largo. Sua que nem um porco. Oitenta quilos por um metro e quarenta. Fala em código. Tem a mania que é doutor apesar de nunca ter tirado curso, o parvalhão. Come sopa, primeiro e segundo prato, fruta e doce. Não fuma, não bebe, não fode. Mas farta-se de ler o cabrão, filho de puta, paneleiro. E gostava da irmã. Aí grande arrial de porrada que levou quando eu descobri. Só não lhe parti os dentes porque não há terceira dentição! Chama-se Simão.
- Que sorte ter um pai assim - Farina olhava para a tatuagem no braço do Palhinha, "Guiné 69 - Amor de Mãe"
- Também acho. Mas ainda não lhe moldei o carácter - e fez um ar triste.
- Sr José, foi um prazer. Vai ter notícias minhas em breve -disse, ajeitando meia dúzia de cabelos sobre a sua mentalidade algo combalida, e levantou-se.
- Agente Farinha, prazer será se resolver este caso. Eventualmente.
Farinha arrastou-se até á porta, ego pelo chão. Nisto ouviu o Palhinhas.
- Oh agente Farinha!
- Diga.
- Feche a portinhola das calças, homem. Ainda se constipa. Vila do Amor á noite é algo ... húmida.
Farinha foi ao tapete. KO técnico!
Fez hoje sete dias que Julieta foi enterrada sobre flores e terra e areia da praia.
Julieta vagueia na Aldeia do Amor neste fim de noite. Imagens percorrem-lhe a memória com tons de dor, sons da vida fora de si provocam-lhe calafrios. A vida continua por ali, igual a si mesma, igual ao que sempre foi, suspensa nos corpos de Jack e Rebecca, nas imagens compassadas de Matisse e Eduardo via webcam, na solidão da rejeição de Nuno por Matisse, no bar de Yoko... vidas tropeçadas em vidas, umas por dentro das outras enroladas por olhares escusos e passos furtivos, salpicadas pelo choro solitário de cada um. E ela? Iria continuar a vaguear como um vulto branco na companhia dos gatos da rua? Estava morta mas não enterrada. Poderia ainda mudar o rumo dos acontecimentos para que nada permanecesse igual.
Enquanto Julieta vagueia ao sabor dos seus próprios pensamentos em direcção ao quarto do inspector Farinha, Jack prepara-se para largar para o mar depois de beijar Rebecca sentindo um calafrio no pescoço, Matisse e Eduardo choram entre soluços em frente à Webcam, Nuno senta-se à porta da sua casa agarrado a uma garrafa de Vodka sueco enquanto lê O Ensaio sobre a Cegueira e pensa que nenhum livro seria mais apropriado para oferecer aos habitantes da Aldeia do Amor, um gato salta para o galho de árvore miando para a lua que estava cheia há já sete dias, gaivotas voam sobre a Aldeia do Amor anunciando tempestade no mar, Simão ao som do Concierto de Aranjuez de Rodrigo (a favorita de Julieta) percorre a livraria vazia em passos de gente mas cheia de mundos inventados, Henrique entra no bar de Yoko como uma rajada de vento.
Henrique fora saber da carteira da Julieta que tinha desaparecido da casa dela no dia da sua morte. Henrique soubera pelo inspector Fari-nha-nha que a-a carteir-aa da Ju-ju-li-e-ta-ta ti-nha-nha desapare-ci-do-do.
Henrique e-e-ra gago. Só quando canta-va-va é-é que-que não ga-gue-gue-java. Por isso, sem-sempre que-que fala-va-va com Julieta-ta canta-va-va o que provocava em Julieta valen-tes ga-gar-ga-lha-das. Durante o enterro de Julieta, fora ele que lera o sermão, cantando claro. Julieta riu dentro do caixão.
Henrique tinha visto Yoko entrar em casa de Julieta na manhã em que ela fora morta. Mas Yoko diz-lhe com a vassoura na mão para não se meter onde não era chamado e pede-lhe para a deixar em paz. Henrique sai e dirige-se ao cemitério onde vai deixar flores secas na campa de Julieta.
Yoko acende um charro e bebe quatro martinis de enfiada." À tua Julieta ". E começa a discorrer da memória. Na noite anterior à morte da Julieta tinhamos todos jantado em casa da Matisse. Eu, Simão, Matisse, Julieta, Nuno, Eduardo, Rebecca, Jack, Henrique e Carolina. Foi a última vez que todos vimos a Julieta viva. Todos menos um. Ainda bem que tive tempo para ir buscar a carteira da Julieta naquele dia de manhã. Só não consegui o diário, a polícia conseguiu apanhar. Mas não lhes valerá de muito. Todos os enigmas precisam de uma chave e essa está bem escondida. Sorri enquanto acaba o charro de erva da Mongólia.
Julieta entra no quarto de Farinha que ouve Irmãos Catita. A banda sonora ideal para inspectores com catarro que não conseguem uma rápida resolução de crimes complicados.
O inspector encheu as paredes do quarto com fotografias do local do seu assassinato, do corpo morto de Julieta, fotos de todos os possíveis culpados e esquemas de possíveis ligações entre eles.
Soubesse eu que ainda iria dar tanto trabalho e tinha morrido mais cedo. Vou ter de ajudar este pobre coitado a encontrar o culpado senão nunca mais tenho descanso. Nem sempre o céu pode esperar.
O inspector olha fixamente para a seguinte inscrição no diário de julieta:
§ SEPTEM § SEPTEM † Cegos que vêem, cegos que, vendo não vêem
Julieta observa as fotografias dos amigos, dos amantes e lágrimas caem.
A tempestade anunciada pela dança das gaivotas abate-se sobre a Aldeia do Amor no momento em que Yoko ao som de Like a Virgin liga para Rebecca e marca encontro debaixo do salgueiro onde Julieta foi encontrada morta sete dias antes numa manhã húmida. " Temos de falar, Becca. Amanhã debaixo do salgueiro choroso". Rebecca desliga e senta-se ao piano. Começa a tocar o Piano Concerto No.21 in C de Mozart. "À tua Julieta!"
O inspector Farinha estava incomodado com o seu desempenho sexual da noite anterior com Yoko, precisava de erecções múltiplas para satisfazer por completo a voragem daquele corpo, não tivera coragem de tomar viagra porque isso era autenticar um problema que ele tentava ignorar e de repente calou os pensamentos e olhou os dados laboratoriais que o patologista lhe tinha enviado na véspera que assombrosamente confirmavam a sua suspeita, a vítima era usuária de drogas ilícitas, esta dependência por pós devia ser a explicação lógica de umas anotações encriptadas no diário de Julieta; o inspector olhava o que lhe parecia ser um nome, um endereço mas aqueles símbolos não falavam por si, precisava da chave lexical para decifrar os guetos daquele diário que nunca fora cor de rosa.
July olha com nostalgia a espuma das ondas e procura limpar as lágrimas que não consegue chorar, não sente a aragem do amanhecer mas consegue sorrir quando vê a nudez de Jack em gozo permanente numa dança de corpos com a Rebeca que necessita de sexo para sentir a música do silêncio, Julieta vagarosamente passa através deles e sabe que Jack continua a guardar o segredo que ela lhe confiara naquela madrugada em que ele lhe colocara o piercing no umbigo e lambera ousadamente a tatuagem circundante, e recorda na sua mente holográfica as palavras de Jack "o segredo é a alma do negócio". De repente July levanta voo como se de uma gaivota se tratasse!
Nuno procura Matisse para aquietar a solidão nos seios sedentos de carícias, mas a rejeição das mãos delicadas de Matisse tornam-no culpado e ela convida-o a encharcar o remorso num copo de vodka sem laranja e atrevidamente despe-se enquanto liga a Webcam para que Eduardo a veja numa distância intocável. Nuno não suporta o jogo de Matisse e bebe desalmadamente até esquecer a sua própria virilidade.
No bar Yoko limpa o chão com a esfregona e cruza o olhar com o gato que indiscretamente lhe sonda as pernas até onde a visibilidade lhe permite, indiferente ao olhar do felino Yoko mastiga as palavras num solilóquio musical " Ora esta a Carolina é lésbica, que raio de coisa para que lhe deu, oh o Farinha sabe de cada coisa". O gato salta pela janela aberta sem olhar para trás e esbarra com o próximo cliente do bar que se dirige impetuosamente para a porta e afinal é Henrique que vai tentar recuperar a carteira perdida de Julieta.
A minha história com Eduardo não se resume a um caso de sentimento, muito menos a uma paixão natural. A nossa relação teve tudo menos normalidade...
Ele era um jovem a despertar para o estado adulto e eu uma menina com ares de senhora.
Os traumas de infância deixavam-no carente de relações de poder, onde a força se pudesse impôr ao carinho, á ternura e a todos esses sentimentos chamados normais por todas as pessoas passiveis de serem designadas normais. "O que é uma pessoa normal?" interrogava-se Eduardo perante a incerteza da normalidade dos seus actos.
Comigo sempre fora um rapaz normal, embora com alguns traços de uma infância nefasta que não o impedia de ser um rapaz feliz á sua maneira.
Um dia perguntou-me: "Julieta, queres sair comigo hoje á noite?"
Perguntei para onde e ele disse que era surpresa. Apesar de algum receio acedi e confrontei-me com uma nova realidade... Os bares que ele frequentava eram bares de "strip integral", embora não tenham nada a ver com bolachas (somente o olhar dos homens que digerem as dançarinas...) e muitos eram a toca de alguns casais swingers.
Mal tinhamos chegado, um casal dirigiu-se a nós e convidou-nos para uma sala escura que ficava nas traseiras do bar. A medo deixei-me levar e quando dei por mim estava nos braços de um homem forte, deveras carinhoso e atraente que me possuia abundantemente...
Nunca me esquecerei dos olhos de Eduardo, que me fixavam enquanto se apoderava violentamente da companheira do imponente senhor que estava atrás de mim...
Entretanto, enquanto Farina se deita, vestido, ainda sob o efeito do álcool, e tremendo perante a possibilidade de estar sendo visitado por alguém do além, Julieta resolve sentar-se junto da lareira e tentar pensar na lista de suspeitos. Ao ser assassinada com o colar de pérolas invisiveis, nem chegou a ver a cara do seu criminoso. Ao ler a lista do agente Farina, logo riscou prontamente Simão, pois não faria sentido se este apenas se cruzou com ela poucas vezes, e sempre pensou que ele nem tinha reparado nela. Henrique também estava fora de questão, tinha sido um devaneio de ambos, de quererem saber como seria a primeira vez, e juntaram-se para satisfazer a curiosidade de ambos. Nuno e Matisse também seriam improváveis criminosos, pois apesar de terem tido uma “troca de fluídos”, que bastante a magoaram, não seriam capazes de cometer tamanha atrocidade.
Restam por isso Eduardo, o seu amigo apaixonado e silencioso no amor, será que o facto do aparecimento em cena de Nuno, teria despoletado uma uma raiva há muito reprimida? Rebecca? A sua Professora de piano? Julieta recorda que esta um dia lhe havia perguntado se ela conhecia o Jack, sim, Julieta sabia que havia um “caso” entre estes, mas sempre se fez de ignorante, pois sabia que Jack era casado, além de se insinuar constatemente junto de Yoko. E esta? Que morria de ciúmes por detestar o meu jogging, que me permitia todos os dias trocar umas palavras com Jack, será que ela chegou a dar troco ao Jack? Carolina? Esta sempre se mostrou muito alegre e “pra frentex” mas também nunca escondeu um certo mistério na sua vida familiar, dizendo (quando tinha uns martinis a mais) que tinha uma vingança em mãos e o palco da tragédia era a Vila do Amor. E porque raios meteram o meu corpo nas mãos do Dr. Boa Morte? Suspeito de actos de pedofilia? E Farina...Julieta relembra que o gato de Yoko logo se assanhou ao ver o agente, e Julieta sempre confiou no instinto felino.
Julieta olha as chamas da lareira, que crepitam, reflectindo-se no seu olhar, mas sente-se fria na mesma, pois a morte é assim.
Os dedos de Farina tamborilam sobre a mesa de fórmica. Sobre o tampo da mesa entre a cerveja e o maço de tabaco, Farina pousa dois cadernos, o pequeno caderno vermelho onde vai anotando as coincidências sobre este caso e o diário de Julieta que descobrira na visita que fizera a casa da defunta.
Enquanto acende um cigarro, abre o seu caderno vermelho e escreve uma lista de nomes. Suspeitos. Por razões que escapam à razão acrescenta o nome do Dr. Boa Morte, Farina sente necessidade de por os pensamentos em ordem, sente-se confuso o que o nosso amável leitor por certo perceberá facilmente.
Bebe um trago da sua cerveja enquanto sente uma estranha aragem a pousar-lhe sobre o ombro. Esta presença éterea é Julieta, a novíssima fantasma que se sentiu atraída pelo seu diário e ali apareceu.
Por cima do ombro do detective, Julieta the new ghost in town. lê os nomes que constam da lista de suspeitos. Incrédula pega na mão de Farina e força-a a riscar uns quantos.
O detective deixa cair o cigarro e não quer crer no que se passa, a sua mão move-se contra sua vontade e com um traço firme que não reconhece elimina suspeitos até que não restem senão quatro. Olha para o rótulo da cerveja Super Blog, só podia pensa e deita o resto fora.
Levanta-se num salto, só não atropelando Juliete devido à sua condição espiritual, senão não se safaria de uma pisadela, encontrão ou quiça ferimento de maior dano. Enquanto fecha o caderno e guarda o diário para ler mais tarde, Farina memoriza os quatro nomes deixados na lista de suspeitos.
Farina chegou à morgue já passava da meia-noite. Chovia Torrencialmente. Após bater de forma insistente, apareceu-lhe o guarda de serviço.
- Quem é voçê ? O que é que voçê quer ?
Farina, flashou a identificação de detective à luz pálida da lanterna do guarda.
- Está aí o Dr. Boa Morte ?
- Oiça lá, voçê sabe que horas são ? O Dr. não recebe ninguem a esta hora.
- Diga-lhe que é o Farina.
O guarda calou-se e baixou a lanterna, ouviu-se o molho de chaves a rodar na fechadura e esta abriu-se. Farina entrou com um sorriso cínico. A sua reputação precedia-o... O guarda voltou a fechar a porta.
-Vou avisar o Sr. Doutor.
Farina entrou no lobby, que estava impecavelmente limpo, como se fosse uma tromba de água. Não se dignou a tirar a gabardina, nem o chapéu e no entanto todo ele escorria. Notou o cheiro asséptico dos detergentes, mas apenas porque pensava que um sitio destes deveria cheirar a morte. Meteu a mão ao bolso à procura dos luckys, estava a inspirar com prazer a sua primeira baforada de fumo quando o Dr Boa Morte entrou.
- Não se pode fumar aqui, Sr Farina.
Farina expeliu lentamente a sua baforada de fumo com um olhar passivo e deixou cair o cigarro no chão de azulejos branco. Desfez o cigarro com a ponta do pé, como se fosse para apagá-lo apesar de este ter caído numa poça de água. O médico ajeitou os óculos incomodado. Era muito alto, de uma magreza extrema e tinha uma voz cavernosa e lenta que lhe dava o tom de uma alma penada.
- Venho aqui para lhe fazer umas perguntas sobre a autópsia daquela rapariga que foi assassinada...
- A Julieta ? Acho que já lhe dei toda a informação sobre esse assunto, Sr. Farina.
- Pois, pois, eu sei... O hematoma na cabeça, os braços arranhados e a distinta marca de estrangulamento no pescoço. Quero saber se já recebeu os resultados das análises de sangue.
- Ainda não.
- Ainda não ? Mas já passaram 3 semanas !
O médico respondeu-lhe com um silêncio e um olhar tenebroso, Farina não sabia se era da água se era da noite, mas sentiu um frio gelado percorrer-lhe a espinha, suspirou... Desviou o olhar e disse:
- Na sua opinião de especialista, que tipo de pessoa poderia ter morto esta rapariga.
- A minha especialidade é a morte, não quem a provoca... mas...
- Mas o quê ?
- Notei um elemento estranho que não lhe referi da outra vez.
- E que elemento é esse ?
- Como já lhe disse o "trabalho" foi meticuloso, usaram luvas e não deixaram qualquer tipo de vestígio identificativo, mas a completa falta de vestígios revela a perfeição com que isso foi feito. Não foi uma coisa do momento, foi algo planeado e executado com muito sangue-frio e determinação...
- E pessoas de sangue-frio reconhecem-se mutuamente não é ?
Farina esboçou um sorriso. O médico pareceu não compreender a alusão e manteve-se em silêncio.
- Ok. Hei de voltar para vir saber o resultado dessas análises. Boa noite.
- Boa noite Sr. Farina.
Farina deu meia volta e meteu-se à chuva, como se ela não existisse. O médico ficou a vê-lo partir, fechou a porta e voltou silenciosamente pelos corredores escuros para o ofício que lhe dava mais prazer. O de dissecar pacientemente os seus clientes.
Jack acordou cedo, como todos os dias. Higienizou-se, vestiu-se, comeu e saiu. O sol ainda não tinha cumprimentado a Vila do Amor e já ele seguia em direcção ao porto de pesca. Jack tinha uma das últimas traineiras da terra, um pequeno aglomerado de casas. Um farol, um hotel e uma estalagem um pouco mais distante eram as estrelas da companhia. Só na época do calor havia mais animação, mais côr e almas nas ruas. O barco tinha herdado do pai, quando este falecera há três anos, vítima duma cirrose. A pesca foi chão que deu uvas, agora com nuestros hermanos ainda menos. O salva vidas é o turismo, a pesca uma espécie de actividade moribunda, mas very typical.
E lá saiu para a faina. Ele e mais dois lobos, caras marcadas por anos de mar, olhar apreensivo a fitar o oceano azul e a pensar por quanto mais tempo fariam aquelas viagens. Jack olhava o infinito, mas o seu pensamento estava longe de qualquer break-even point (expressão que ele, na sua rudeza, desconhecia ou traduzia por “esta merda dá dinheiro ou não?”). Não, ele pensava no que tinha acontecido á pobre rapariga que lhe chamava caçador de gaivotas, quando aos domingos ia pescar para a praia. Sabia que andava na vila um detective, um tal Farinhas (“Farinhas, isso é nome de ração para gatos”) a investigar a sua morte. Quem lhe deu a notícia foi Rebbeca, a professora de música, que dava aulas de violino a Julieta. Tinha-lhe dito ontem, assim a jeito de olha-lembrei-me-agora-por-acaso, já eles estavam a vestir-se, depois de mais um serão em compasso binário. Ele e ela, a professora. Está fácil de ver os instrumentos do concerto. Exactamente, ela adorava em cima do piano. Fantasias.
Entre os sobressaltos dum mar ligeiramente picado, Jack pensava numa tarde em que tinha conversado pela primeira vez com a moça. Lembrava-se dela. Não era baixa, nem alta. Bem feita e aparecida, com umas feições bonitas, levemente morena, olhos e cabelos pretos. Naquele dia tinha um sorriso alegre. Alías, devia ter sempre. Mas naquele dia o sorriso era movido a alcóol. Martinis, veio a saber pela boca dela. Queria pescar com ele. Sim, pescar. Um golfinho. Para depois ir até á América, claro. “Então e queres ir lá fazer o quê?”. “Quero fugir daqui para fora, são todos maus, todos uns falsos”. Jack percebeu então que o Martini já tinha escancarado todas as portas daquela mente. “Mas o que é que...”. E nem acabou. “O Nuno ‘comeu’ a Matisse.”. Dito isto ficou para ali a soluçar, não havia bebida que lhe valesse. Jack teve de a levar a casa naquele dia. Outros se seguiram, mas ele nunca tocou no assunto. Só falavam de música e de livros.
Nisto um dos seus ajudantes chamou-o. Ele largou o leme e foi ajudar a lançar as redes...
Julieta debate-se entre a necessidade de sair de um estado quase vegetativo, onde só a mente corria de lés a lés todas as emoções de uma vida e a inoportunidade de uma morte indesejada.
A doce e aquática Matisse enfiada na banheira com sais de banho afrancesados pensava no absurdo da impermanência e sentia um vazio indefinido na solidão em que a viagem inesperada de Julieta a tinha lançado numa fogueira de desejo e de remorso, afinal de contas a paixão doentia que sempre tivera por Eduardo podia libertar-se do anonimato e tornar-se uma emoção de corpos.
Matisse olha o corpo desnudo e sente a espuma ocupar todos os poros da libido, um profundo arrepio assedia a sua natureza feminina e num acto volitivo de possuir irrompe em orgasmos múltiplos....Bruscamente tudo se dissipa e chora copiosamente na sua sedução. Está decidida a tornar-se a tentação de Eduardo e enquanto trinca uma maçã telefona a marcar a hora da psicoterapia.
O detective Farinha magica imagens pornográficas de Yoko com um sorriso nos lábios e dirige-se lentamente até ao instituto de medicina legal, porque precisa do relatório da autópsia e de umas quantas explicações que só o patologista lhe pode fornecer; que raio de sítio aquele, nunca se tinha habituado a necrotérios.
Numa espécie de parto eutócico, Julieta deixa o ventre da terra numa levitação holográfica e saltita descalça na relva do jardim, o jardim onde descobrira os lábios de Henrique e de repente vê-se sentada aos pés da cama dele a olhar um sono etílico e tem o desejo de o abraçar... entra-lhe pelo corpo e sai-lhe pela alma. Inesperadamente Julieta grita: -Então é isto a ubiquidade ahaha!
Psst! Vou sair daqui, deste caixão de segunda e vaguear um pouco pelo mundo que foi o meu há até pouco tempo. Agora sim, vou fazer de alma penada a vaguear por aí. E de vestido branco então!! Vai ser bonito. Mas vou evitar dar uns sustos do outro mundo apesar de haver por aqui muita gente que merecia. O inspector que chegou à cidade é um deles. O que ele não daria para poder falar comigo. Mas não. Vou evitá-lo, um morto não morre para facilitar a vida a ninguém. Muito menos a curiosos que nos andam a vasculhar a vida. Ou melhor, a ex-vida. Mas vou sair. Acompanhem-me. Quero ir ver quem eu conheci em vida e que me faz ainda falta em morte. Estas saudades de gente morta demoram a passar, pressinto-o. Sair daqui não será difícil, sempre são apenas seis palmos abaixo do chão. Deve estar tudo no mesmo sítio, todos com as mesmas rotinas, os mesmos anseios. A morte só muda a vida a quem morre. Irónico não? Relembro agora que não tinha dormido nada na noite anterior. Não, não tinha tido nenhum sonho premonitório, nem nenhum anjo se tinha abeirado da minha cama para me preparar para o que iria acontecer. Isso são contos de fadas. Morrer não requer preparação nem aviso. Morre-se, vai-se morar por uns tempos para um caixão e pronto. Escuro, frio, pouco espaço, a mesma roupa até à infinidade dos tempos e solidão. Deus? Ainda não o vi. Não sei por onde anda se é que anda. Como o pintam, deve no mínimo flutuar. E não, ainda não me fizeram recepção de boas-vindas. A morte não nos leva a Deus. Leva-nos é a nós próprios. Começo a achar que morrer será isso mesmo. Será olharmo-nos de frente, sem redes de apoio, sem retornos possíveis, sem escolhas. È um espelho límpido, sem manchas e artifícios. Em parte continua-se com um pé na vida já que continuamos à procura de sentidos para o que aconteceu. Mas na noite anterior tinha passado a noite em branco a tentar entender como seria a vida sem a abertura do portão final, sem a morte. A imortalidade sem cálice. Andava já há uns tempos com esta ideia a girar sem parar na minha cabeça. Mas vamos lá para cima, preciso mesmo de apanhar ar. Uma morta com claustrofobia e que não quer dar sustos!!!
Farina tirou a sua gabardine, farda de trabalho e imagem de marca, e sentou-se ao balcão a fumar. Quando estava bem disposto costumava fumar dois maços. Hoje, dia em que estava com comichão, reacção alérgica provocada pelos casos que não compreeendia, ia a terminar o terceiro. A mulher dizia-lhe que ele estava a pôr pregos no caixão. Ele respondia, alienado, que já era grossista de ferragens. Puxou mais uma passa, tirou o lenço verde azeitona e castanho de algodão do bolso e fungou. Passou a mão pela cabeça, á procura do resto do cabelo que ainda tinha e das explicações que não havia meio de aparecerem.
Quando a Maria de Loudes, portuguesa naturalizada Yoko, por força das actividades da indústria hoteleira, e outras por nós ainda desconhecidas, chegou com a Schweppes "on the rocks" e com limão para o inspector Farinha, agente que ela classificou logo como "Terceira Divisão Regional", a vontade que teve foi substituir o quinino por cianeto. "Oh, a minha jarra de cristal". Ao que a sensibilidade do outro artista respondeu: "É..é.. um material fraco, não é? Peço desculpa." Ficaram amigos a partir dali. Uma relação selada a cacos. Claro que o Fanina esperou em vão pela Carolina. A amiga envia-lhe um SMS. SMS de resposta: "Tb n ia. Tenho aqui 2 camones para tratar". Em frente ao inspector, que não, que vem, que deve estar quase a chegar, que prometeu, que o gato Tobias faz anos hoje (a outra que trata o gato ao pontapé, quando acorda mal disposta, ou quando algum freguês se "esquece" de lhe pagar). E o outro parvo a ir na conversa, candidato a depósito de bebidas gasosas.
Respostas para o mal amanhado? Do mais evasivo possível. Sim eram muito amigas. Conheciam-se dos tempos de liceu. A Julieta? Muito bondosa, com os pais, os amigos, os animais, as flores. Yoko tentava procurar inspiração em todos os santos que se lembrava para compôr o ramalhete para aquele palerma encartado. Inimigos? Não! Uma santa. Como explicava que alguém a tivesse morto? Então não tinha sido suícidio? Ambas as hipóteses estavam em cima da mesa. Bom...um psicopata (e olhou para o Farina de alto a baixo, de sobrolho franzido). E ali ficou o resto da noite, até a hérnea da autoridade dar de si e recambia-lo para a estalagem...
O agente estava decidido a resolver este caso. Era sem dúvida o caso da sua vida.
Agora percorria as ruas da pequena vila em busca do tal bar. A pista tinha-lhe sido dada por um homem no mínimo estranho. Estranho não, estranho não era, definitivamente o adjectivo adequado. Atípico, sim era isso: era um homem atípico. Tinha-o encontado quando vinha do farol. Tinha ido ao farol à procura da tal Rebecca a professora de violino da falecida. Apesar de poder jurar que tinha visto um movimento de cortinas, ninguém tido aberto a porta e foi aí, quando descia a colina e voltava de novo para a pequena vila (que ironicamente se chamava Vila do Amor) que encontrou o tal homem. Não conseguia perceber se o homem subia ou descia o caminho que apenas levava ao farol mas alguma coisa lhe dizia desde logo que devia parar e conversar com misteriosa personagem. À medida que se aproximava teve então uma certeza. O homem não subia nem descia: esperava-o! Por precaução levou a mão ao bolso da gabardine e verificou com agrado que tinha trazido a arma. A sua profissão tinha-lhe ensinado que não era nas grandes cidades (apesar de não conhecer nenhuma) que aconteciam os crimes mais sangrentos. Quando alcançou o homem que entretanto tinha deixado de ser apenas um vulto os receios dissiparam-se: era maior do que parecia mas tinha estado chorar! Parecia ter urgência em contar alguma coisa e por isso dispensaram as apresentações. A doce Julieta (as palavras eram dele) tinha sido morta. “Já falou com as amigas?” O agente respondeu que sim que tinha falado com os amigos mais chegados mas o homem não o deixou acabar…”Não, não…com as amigas” O agente pensou que finalmente tinha conhecido alguém que, por vezes, falava em itálico…havia uma personagem assim num romance que tinha lido…
As amigas, afinal eram uma japonesa dona de uma espécie de botequim e uma tal Carolina (a quem chamavam cigana) e que pelos vistos “andava na vida”. “ eram inseparáveis, como irmãs, mesmo,… e nada me convence que não têm nada a ver com tudo o que se passou…”
Entrou no bar. Era um típico botequim de vila pequena, com balcão de pedra e toda a espécie de clientes, o que contrastava com as luzes de néon que do lado de fora brilhavam: SUSHI. No balcão, uma rapariga de idade indeterminada (algures entre os 17 e os 31anos) acariciava um gordo e grande gato e ao mesmo tempo com uma voz rouca, doce e triste cantarolava: Someday he’ll come along, the man I love, and he’ll be big and strong , the man I love…Apresentou-se: “Boa Tarde, Eu sou o agente Farina e gostava de falar consigo..”
“Boa noite”. (nada no seu modo de falar denunciava aquilo que estava evidente nos seus olhos rasgados e nos seu cabelo liso e de um negro mais brilhante do que aquilo que era possível imaginar, mas o que o agente mais estranhou foi o facto dela não parecer minimamente incomodada com a sua presença)”O meu nome é Maria de Lurdes mas pode tratar-me por Yoko –já esperava por si senhor Farinha”
“Fa-ri-Na (desejou também ter a capacidade e de falar em itálico” “ Agente Farina, peço desculpa” e beijou o gato que mais tarde, mas só mais tarde, o agente viria a saber que se chamava Tobias.
“Deseja beber alguma coisa? “ Siimm…pode ser um gingerale””Não temos”( usava sempre o plural, nem ela sabia porquê, visto que era a única dona do bar e não tinha empregados””Então... pode ser uma água tónica. E a sua amiga Carolina não está por aí?”
A Carolina passou a tarde ali no Cine-Amor a ver um ciclo de reposições de uns filmes suecos mas deve estar aí a chegar para jantarmos…”
”Uma misteriosa professora de violino que vive num farol, um homem atípico com lágrimas nos olhos uma japonesa que não é bem japonesa e que gosta de jazz, uma mulher da vida que vê filmes suecos… o que teriam todas estas pessoas a ver com a falecida, com a doce Julieta?...bizarro, bizarro…”-pensou o agente ao mesmo tempo que, sem reparar, deitava abaixo a jarra com orquídeas murchas que se encontrava em cima do balcão...
Claro como sempre as raparigas são providas deste savoir faire, de quebrar o gelo em situações que o urgem.
Nuno, o meu namorado, logo reparou na hostilidade que se instalou na sala, e agradeceu o sorriso aberto da Matisse, ficando a pensar como iria passar no teste Eduardo.
Nuno começou por beber um martini e aproximou-se do Eduardo, perguntando como tinham sido as aventuras vividas no Erasmus, eram tantas as nacionalidades juntas num apartamento que de certeza que o Eduardo não se esquivaria a contar alguma peripécia.
Abri a porta e pendurei-me no seu pescoço. Beijei-o talvez com um entusiasmo excessivo para que os meus amigos de sempre não tivessem dúvida de quanto o amava. Já sabia que iriam opinar no fim da noite ou mesmo ao cruzar os passos no corredor quiça na preparação dos cafés.
Senti os seus olhos como punhais cravados nas minhas costas e na perna que levantara enquanto o beijava.
Quando Ele entrou na sala uma corrente de ar frio petrificou o ambiente. Tentei fazer umas apresentações que quebrassem o gelo mas o olhar de Eduardo não enganava. Matisse obedeceu às minhas súplicas e resolveu tentar ser simpática.
Mas bolas, porra, merda, já está o pato queimado! Eu precisava dele, precisava mesmo. O que me vale são os camarões, estes assim, receita do meu tio médico que vive no Chile.
Gosto dele, gosto muito, agora que me lembrei. Esteve cá, sim esteve cá, há 3 meses, mais coisa menos coisa, na altura que conheci o meu queridinho.
Estranho foi que parecia conhecerem-se, o meu tio e ele. Claro que é algo que não é possível, meu tio não vinha a Portugal à mais de 25 anos. Mas não, não pode ser.
A jarra é alta, fina. cristal nórdico, ficam bem as orquídeas assim.
No instante silencioso das orquídeas olhei com espanto o pato com laranja que acabou por esturricar no forno, encolhi os ombros e despudoradamente descalcei os sapatos altos no mármore tépido da cozinha, fiquei a saborear aquele momento de solidão, porque o Eduardo conseguira calar até ao momento aquele acontecimento que nós os dois tínhamos fechado num pacto de silêncio mas eu tinha o direito ao esquecimento e ele exibia a sua dor sem recato, tocando na periferia da cicatriz de uma inverdade.
Knock, Knock a campainha da porta murmurava a presença de alguém que eu julgava desejar, amar numa profundidade corporal a tocar a possessão do outro, eu julgava estar certa nesta escolha de um amor a tempo inteiro...A Matisse chega à porta da cozinha e interroga-me com aquele olhar oceânico ... Eu respondo com os olhos húmidos: -Já vou, tenho de ir!
O odor da pimenta faz espirrar os camarões que estão a saltear na frigideira enquanto o vinho escorre pelas goelas abertas da consciência condicionada pelo ter de ser, pelo reboliço geral dos copos e dos corpos.
Uma alegria incondicional toma conta de todos os hiatos do tempo e a reunião de um trio pode tornar-se um quarteto um octeto onde se promete estranhas revelações ou revoluções da palavra.
Dizer Feliz Aniversário não basta é preciso inventar uma festa de arromba com palpitações de néons vermelhos e hard music para queimar até ao último folgo as velas de vinte e uma ilusões.
Tudo é permitido na voragem do acontecimento, até mesmo engolir sapos de outros tempos em que o Eduardo espetou o dedo onde não devia e foi suspenso por má criação, é um atol de memórias que se espalha pelas paredes da sala e o Eduardo vomita exaustivamente os traumas de uma infância indesejada e o silêncio toma conta da noite num rasgo de inocência todos os outros cantam em uníssono "Parabéns"!
Estou a precisar de um digestivo porque as labaredas das emoções começam a regurgitar sensações de dejá vu.
O amor não se inventa num só dia e afinal Eduardo amava caladamente uma ilusão enquanto eu estou inteira num amor recente, configurado segundo as necessidades do momento.
Vou buscar uma jarra para pôr as orquídeas que a Matisse me ofereceu, são belas e silenciosas.
- Sete de Julho. É hoje o grande dia! Vinte e um aninhos frescos.
Como isto passa rápido, meu deus... parece que foi ainda ontem que andava na primária às turras com o Eduardo e a Matisse, o trio elétrico! Agh, tou a ficar idosa!
Mal posso esperar para os ver e pormos a conversa em dia. Ainda quero ver o que um ano a fazer Erasmus em Paris lhes fez, os boémios, hehe...Vou apresentar-lhes finalmente o meu queridinho...vão adora-lo, espero.
Conheci-o há 3 meses. Realmente não há nada melhor que um novo amor para curar as feridas velhas e dar ânimo á vida. Bem, tenho de ir tratar do jantar desta noite, só de pensar nos camarões que me esperam começo a salivar descontroladamente...
"Vou..." Vou tentar permanecer quieta e em silêncio, o que não me parece dificil neste estado de pré-putrefacção, e deixar que os passos terrenos se dissipem na imensidão deste mundo.
Um mundo grandiosamente grande lá em cima mas demasiado exiguo cá em baixo, dentro desta caixa de pinho mal acabada.
Estou de novo sozinha... Deixei de ouvir os passos que reconheceria em qualquer parte... os passos de quem me trouxe a esta condição de defunta.
O gáz do meu isqueiro está a acabar e entretanto vou entrar no verdadeiro mundo das trevas, numa escuridão de morte. Tenho medo, muito medo.
Olá! Então, não me vêem? Está muito escuro, não é? Eu já me fui habituando. Não, não é de noite, nem a falta de luz se deve ao voo rasante de nenhum corvo sobre fios condutores de electricidade. Os caixões são assim mesmo. Lúgubres, frios.... terrivelmente económicos em termos de espaço. Esperem aí, acho que me deixaram um isqueiro no bolso deste vestido horrível. Ok! A luz é pouca, mas dá para me verem relativamente bem apesar de eu não vos ver a vocês. Para mim até são vocês os fantasmas. Humor de morta. Vão-se habituando que eu já me habituei. Não se assustem com a palidez do meu rosto, acreditem que há mortos ainda mais transparentes. Pois é, estou morta, estou pálida e estou mal vestida. Quem me enfiou aqui nesta caixa sem abertura fácil tinha um péssimo gosto. Se não estivesse já morta, morria de susto se me visse ao espelho. Passar desta para melhor é mau, fica pior ainda quando aos vinte e oito somos enterradas como sendo meninas de dez. Enfim... devaneios de uma morta. O vestido tem mesmo folhos, não são alucinações visuais devido à falta de ar nesta caixa de fósforos. Mal me consigo esticar. Passando ao mais importante... morri. Mas se quiser ser mais concreta, coisa que nunca em vida fui, adianto-vos já que fui assassinada. Morrer não é bom, é mau e é ainda pior ser assassinada, asfixiada até à morte. Não sei quem me matou. Só senti aquelas mãos quentes a segurarem-me o pescoço, a respiração do assassino em cadência ao meu ouvido e depois a corda, aquele colar grosseiro sem pedras preciosas, peça única a enfeitar meu corpo no momento em que larguei o conforto de estar viva. Não tive tempo para ver a cara do meu assassino. Apenas o senti. Não há tempo na morte. Tudo pára para nós ao mesmo tempo que nos apercebemos que a vida corre estranhamente célere para lá da íris. Por isso estou aqui enfiada, com a alma condensada neste sepulcro que nem a sete palmos abaixo da terra está. O coveiro estava cansado e escavou menos do que devia, por isso consigo ouvir os passos de quem se passeia por este jardim com cruzes feitas árvores. Aqui vou ficar enquanto não descobrir quem me matou e roubou à vida. Há quem diga que me suicidei porque fui encontrada com a corda ainda ao pescoço debaixo de um salgueiro. Mas não me matei apesar de ter todas as razões para o fazer. Ninguém me acusaria. Há várias pessoas que me podem ter assassinado. O Jack, o caçador de gaivotas da praia onde eu ia correr todos os dias ao nascer do sol; o Simão, homem-moço que por detrás do balcão da livraria me indicava com o olhar livros para eu ler e descobrir a vida para além dos meus passos; o Eduardo, meu amigo de infância e meu eterno amor com retorno que me acariciava a pele com seus sonhos de paixão; e o Henrique, a sombra da minha sombra, pertencia a ele a mão que todos os dias me deixava flores mortas à entrada de minha casa. Todos teriam a sua razão. Há sempre razão para as coisas acontecerem. Deus criou o mundo em sete dias. Lá teve a sua razão. Em sete dias alguém planeou a minha morte e... schiuu. Schiuu, que vem lá alguém. Reconheço estes passos que pisam as folhas secas do Outono. Ouvi-os já por duas vezes, à sete dias atrás e no momento da minha morte. Vou ...